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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Miguel

Ola, Para quem está chegando agora, esse é o blog que mostra a história do Miguel, contada por mim (sua mãe) e pelo Daniel (seu pai). Se você quiser ler desde o início, deve começar pelos primeiros posts em janeiro e seguir de trás para frente até chegar neste. Embora a Clarice mereça um blog igualmente lindo, do alto dos seus quase 11 meses de pura "fofisse" (rs), eu optei eu dar exclusividade ao Miguel no "Doce e Calma". Entrem e fiquem à vontade, Um beijo, Kelly Cecilia Teixeira

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Clarice

Caros,

É com muita satisfação que eu e Daniel anunciamos a chegada da nossa... filha: Clarice!!! Nosso bebê é uma linda menina! Ela é uma serelepe e mexe bastante, principalmente quando cantamos para ela!

Segundo o Guia do Bebê, Clarice tem as seguintes características:


Significado: Claridade

Origem: Francês

Numerologia: Alma 

O seu bebê tem uma sensibilidade muito grande e você deve incentivá-la a ouvir musica desde pequenina. Quando estiver maiorzinha, vai adorar massinhas, livros, lápis coloridos, instrumentos musicais e tudo o que mexer com seu lado artístico. Ela é também carinhosa e muito emotiva. Basta falar alto com ela para seus olhinhos se encherem de lágrimas. Seja cautelosa e encha essa garotinha e amor.

Numerologia: Personalidade

Ela tem uma personalidade forte e é muito segura. No primeiro dia de aula, provavelmente vai te dar um tchau e entrar na escola sem olhar para trás. Mas será fácil lidar com essa menininha. Às vezes, ela age sem pensar, por impulso, e pode até se mostrar egoísta em alguns momentos, mas não será preciso dar muitas broncas, já que é uma criança generosa, companheira e disposta a ajudar e obedecer. Preste atenção à intuição dessa garotinha. Ela é sensível e suas ideias devem ser ouvidas e respeitadas.

Numerologia: Destino

A missão dela é ajudar a manter a harmonia na família. Sua filha sabe muito bem controlar as emoções e não será um bebê chorão. Com seu jeitinho tranquilo, vai brincar sossegada com suas bonecas, falar em um tom agradável e deixar a casa em clima de paz. Não será uma menina encrenqueira e, se depender dela, até os irmãos e amigos mais bagunceiros vão aprender a se divertir de uma maneira mais harmônica, sem berros, gritaria, brigas e confusões. Ela veio em missão de paz.


Na foto abaixo estou com 21 semanas de gestação.


Um beijo e um abraço afetuoso,

Kelly Cecilia Teixeira

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Kelly + Daniel = Bebê II

Caros,

Para quem acompanhou a nossa linda história de amor com o Miguel vai ficar feliz com a novidade: É com muita alegria que anuncio que estou gestante novamente!!!


Esta é uma pequena amostra do ultrassom morfológico de 1º trimestre, segundo o qual nosso bebê está completamente saudável! Atualmente estou com 14 semanas de gestação.

Estamos todos muito felizes e ansiosos com a chegada do irmãozinho ou irmãzinha do Miguel.

Obrigada a todos que nos apoiaram e fizeram parte da nossa história.

Um beijo e um abraço afetuoso,

Kelly Cecília Teixeira

sábado, 10 de março de 2012

Seja bem-vindo!

Olá,

Para quem está chegando agora, esse é o blog que mostra a história do Miguel, contada por mim (sua mãe) e pelo Daniel (seu pai). Se você quiser ler desde o início, deve começar pelos primeiros posts em janeiro e seguir de trás para frente até chegar neste.

Acabei de criar também uma página de imagens, que conta com algumas fotos desse período que ficamos juntos.

Entre e fique à vontade.

Um beijo,

Kelly Cecília Teixeira

domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Posfácio"

Posso dizer que essa foi a experiência mais intensa e única da minha vida! Foi um período onde vivi praticamente todas as emoções que um ser humano pode ter... um turbilhão de sentimentos e pensamentos.

Apesar de todo o planejamento para receber esse filho, a surpresa já apareceu logo de cara, com a notícia da gravidez, pois imaginávamos que ainda teríamos alguns meses de tentativas até termos êxito, já que a Kelly havia acabado de interromper o uso da pílula. Daí até completarem-se os três primeiros meses foi um misto de alegria, euforia, perplexidade... parecia que ainda estávamos meio anestesiados... parecia meio sonho, meio realidade... e a ausência da saliência na barriga, devido ao pouco tempo de gestação, da falta de movimentos do bebê, pois ainda era minúsculo, e também da falta de enjôos e mal-estares da Kelly, não nos faziam sentir que logo seríamos pais de verdade. Mas já estávamos curtindo muito a ideia e toda a novidade.

Quando recebemos o diagnóstico sobre o problema com o nosso bebê, parece que uma força puxou-me ao chão, me fazendo centrar em meu próprio corpo. E passados os primeiros momentos e dias de desespero, angústia, medo e tristeza, senti uma conjunção enorme entre meu corpo, coração, mente e espírito, mostrando que precisaria realmente estar inteiro, de corpo e alma, naquele momento de nossas vidas, principalmente para ser o arrimo sólido e confiável para minha querida esposa e para o filho que geramos. A cada dia, a cada palavra amiga, a cada prece e boa vibração, a cada reunião e passe recebido em nosso Centro, a cada encontro do grupo de terapia... sentia nitidamente o acúmulo de luz e boas energias em torno de nós, nos fazendo sentir fortalecidos e amparados o tempo inteiro. Acho que nunca estive tão perto de Deus, Jesus e da espiritualidade quanto nesse período. Lembro-me, em uma das sessões de passe que recebemos, de ter tido a imagem perfeita de uma mão gigantesca sendo estendida a mim, como se o próprio Mestre Jesus estivesse me dizendo “venha, meu filho! Eu estou aqui! Confie em mim! Você pode enfrentar tudo isso!”... E todas essas coisas nos faziam sentir cada vez mais confiantes em Deus, num tremendo exercício e teste para nossa fé. A certeza de que estávamos amplamente amparados por todos os lados e de que tínhamos feito a melhor escolha, que era a de deixar tudo acontecer conforme a vontade de Deus nos deixava com o coração leve e a consciência tranqüila.

Senti-me tão preparado e confiante, que consegui acompanhar a Kelly em todos os momentos, inclusive na sala de parto (que era um dos meus receios, antes mesmo da gravidez acontecer), pois eu sabia que a minha presença seria muito importante, reconfortante e necessária para ela.

Logo após o parto, fui chamado para uma outra sala, onde os bebês que nascem vão sendo recepcionados e acolhidos. Ainda no corredor, uma das médicas conversou comigo, confirmando o diagnóstico de todo o problema e que o coraçãozinho dele já estava batendo mais fraco, me dizendo que eles não iriam realizar nenhum procedimento de reanimação ou conexão com qualquer tipo de aparelho, pois tudo seria muito agressivo e sem muito sentido naquele momento, esperando assim que parasse de bater completamente. Entramos nessa sala e ela me conduziu até o berço onde estava o Miguel, todo peladinho e imóvel, mas ainda quente. Não conseguia parar de chorar, meu coração estava muito acelerado e sentia um enorme calor também. Era um sentimento ambíguo: a felicidade de ser pai e ver o filho pela primeira vez, mas a tristeza por toda a situação e por saber que já estávamos nos despedindo. Coloquei o dedo entre seus dedos, na esperança de algum pequeno aperto ou contato, e depois coloquei a mão sobre seu peito e só consegui dizer “Oi, Miguel! Eu sou o seu papai! Fica tranqüilo que vai ficar tudo bem...”. E logo sai para voltar a dar apoio à minha esposa.

Foram momentos extremamente paradoxais, que nos fizeram refletir e vivenciar a alegria e a tristeza, a vida e a morte, a angústia e a euforia, a certeza e o medo... Mas nada disso nos impediu de procurarmos dar o melhor ao nosso pequeno Miguel, de curtir toda a sua gestação, todos os momentos em que esteve conosco, através de músicas, fotos, conversas, carinho, afagos, brincadeiras, viagens, orações e tudo o mais que qualquer pai e mãe vivencia com seus filhos, independentemente das fases da vida ou do tempo em que passem juntos.

E acho que essa é a lição que devemos tirar de tudo isso: que estamos aqui de passagem, uns por mais, outros por menos tempo; mas que a vida é uma oportunidade única para aprendizados, experiências e, principalmente, a vivência do amor entre todas as pessoas. E, se esse amor puder ser incondicional, tanto mais perfeito será!

Aproveitemos o tempo para a construção de coisas boas, no caminho do bem, e sempre ligados a Deus, pois só Ele é quem sabe aquilo que é melhor para o crescimento de cada um de nós.

Temos a certeza de que o Miguel hoje está melhor do que antes, e pôde aproveitar da melhor maneira essa experiência única. Acredito, inclusive, que ele teve um grande merecimento, e foi poupado de maiores sofrimentos após o seu nascimento e desligamento. Para mim ficou a clara sensação de que ele “nasceu aqui e, logo em seguida, já nasceu lá do outro lado novamente”. E que possamos seguir o seu exemplo de coragem, luta e determinação...

Agradeço imensamente a todos os que nos apoiaram, de perto ou de longe, pessoalmente ou em pensamento, durante todo o processo ou depois dele e até agora, aos que estiveram do nosso lado todo o tempo ou só por alguns momentos. Que Deus os abençoe sempre!

Um pai feliz pelo dever cumprido.

Daniel Fermino Ribeiro

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Capítulo 18 de 18

Nascimento

Dia 12 de janeiro de 2010. Terça-feira. Nascimento do Miguel.

Fazia um calor danado, e logobcedo o sol já dava suas caras. Acordamos na hora prevista e sem maiores delongas começamos a nos ajeitar para seguir até o hospital. Tomei banho, conversei com o Miguel enquanto me vestia. Coloquei sandálias e um vestidinho verde bem fresquinho. Verde esperança. Peguei bolsa, malas e dei aquela última espiada pela casa para verificar se não estava esquecendo nada. Olhava tudo várias vezes como se quisesse ficar só mais um pouquinho em casa. E a vontade era de desistir, ficar ali, só eu, Miguel e Daniel pra sempre. Mas não tinha jeito, meu bebê tinha que nascer.


No caminho, passamos na casa da minha mãe para pegá-la. Meu pai tinha ido trabalhar e iria depois para o hospital. O caminho até lá foi silencioso. Chegamos e como em vários momentos na minha vida, entrei pisando com o pé direito. Para dar sorte. Fizemos a ficha e aguardamos a chamada na sala de espera. Não demorou muito, uma atendente chegou para nos conduzir até o quarto. Era no segundo andar, ao lado do berçário.

Ao entrar no quarto, nenhuma surpresa, tudo era bem arrumado, elegante, igual ao que tínhamos visto no dia da visita à maternidade. Enquanto esperava as orientações da enfermeira, tratei de personalizar o quarto. Coloquei o enfeite na porta, e fui preenchendo as lembrancinhas com a data do dia. Deixei para preencher no próprio dia por medo do Miguel resolver chegar antes e o cartão ficar com a data errada. Logo depois, a enfermeira-chefe chegou e me examinou. Fez uma série de perguntas elencadas em um questionário e pediu que eu aguardasse. Ficamos no quarto conversando, até que um tempo depois, ela chegou com o avental e solicitou que eu vestisse. Verificou minha toilette e novamente pediu que eu aguardasse mais um pouco. Nesse meio tempo, chegaram meus amigos Andrea e Erick, que vieram para dar força e desejar boa sorte. Nós conversávamos sobre amenidades enquanto minha mãe parecia bastante apreensiva. Pouco mais de uma hora depois, a enfermeira voltou trazendo uma cadeira de rodas para me levar ao centro cirúrgico. Naquele momento, meu coração acelerou e embora não quisesse transparecer, estava apavorada. Despedi-me de todos. Minha mãe me deu um abraço forte e o Daniel me deu um beijo de até breve, pois estaria logo mais comigo na sala de parto. Algumas pessoas chegaram antes que eu entrasse no elevador já no corredor da maternidade, mas lembro-me apenas da Juliana chegando com pressa para me dar um abraço. Levei comigo o carinho de todos.

Dessa hora até o nascimento do Miguel, minha memória embaralhou uma série de fatos, mas lembro-me de ter ido para outra sala de espera, onde ficam outras gestantes. Todas estavam com a indumentária característica, apreensivas, assistindo desenho animado na TV, único programa disponível naquela hora da manhã. Mas todas olhavam para a televisão com um olhar distante, como se aquilo não fizesse mais o menor sentido, e fosse apenas um paliativo antes de chegar a grande hora. Fiquei nessa sala um tempo. Muito tempo. Umas grávidas saiam e outras chegavam. E se eu já estava nervosa, essa demora me afligia ainda mais. Até que uma enfermeira veio me avisar que o Dr. José Domingos estava atrasado devido a uma emergência, mas estava a caminho. Assim, me transferiram para uma sala mais confortável, com maca, luz amena, onde pude deitar e descansar. Nessa sala, me aplicaram o cateter, por onde passaria o soro e todos os outros medicamentos. Havia outra moça na sala, que também esperava o seu médico. Embora cúmplices da mesma situação, não trocamos palavras, e no silêncio do quarto, podíamos apenas ouvir a respiração uma da outra.

Enquanto esperava, as enfermeiras vinham de vez em quando na sala, davam algum remédio, alguma orientação ou apenas entravam pra preencher alguma coisa nas suas fichas. Em uma dessas vezes, vi uma delas cochichando com a outra, e mostrando algo na ficha. A outra se espantou e fez cara de lamento. Percebi que falavam de mim e do Miguel. Senti vontade de chorar e de que tudo fosse diferente.

Após alguns cochilos, a assistente do Dr. José Domingos chegou, se apresentou e disse que em alguns minutos subiríamos para o centro cirúrgico. Não demorou muito e as enfermeiras me conduziram até lá. Ao entrar, me espantei ao ver uma sala pequena, diferente daquilo que eu imaginava ser uma sala de parto. Já havia algumas pessoas no local junto com o meu médico, eram os anestesistas e assistentes. Falavam de amenidades, davam risada e brincavam um com o outro. Era uma forma de deixar o momento mais relaxado. Eu sentia vontade de dizer um monte de coisas, fazer quase uma sessão de terapia, mas minha garganta estava travada e eu não conseguia fazer nada além do que eles me orientavam. Queria falar, queria gritar, queria sair correndo, mas também queria ficar e ver a carinha do meu bebê.

O anestesista pediu para que eu sentasse em determinada posição na maca para que ele pudesse aplicar a injeção. Um assistente ficou na minha frente, pediu que eu abaixasse a cabeça e dobrou os braços para me servir de apoio enquanto eu tomava a anestesia. Não doeu, mas foi uma sensação bastante estranha, incômoda. Deitei e senti que os médicos arrumavam o avental, os tecidos, os equipamentos. Comecei a ficar apreensiva, pois parecia que tudo estava começando, sem que eu soubesse e que o Daniel estivesse comigo. Prenderam meus braços e colocaram um tecido na frente do meu rosto. Só então, vi o Daniel entrando pela porta. Parecia um deles, vestido de azul, de toquinha e máscara. Mas o reconheci pelos olhos, bem característicos. Era finalmente, um semblante familiar.

A sua entrada anunciava que era chegada a hora. Tudo preparado, era a hora do Miguel nascer. Já não sentia mais as minhas pernas, estavam pesadas, imóveis. Mas sentia um frio absurdo, de tremer o queixo. Achava que era do ar condicionado daquele ambiente frio e cheio de metal, mas soube depois, que era efeito da anestesia. Foram momentos de muita aflição. Sentia o Daniel segurando a minha mão, mas tremia muito, e aquele pano na minha frente me causava falta de ar. Comecei a ficar ofegante, agitada, mas não podia nem me mexer e nem mexer meus braços. Perguntei várias vezes se já tinha começado, e o Daniel não soube responder. Perguntei várias vezes se o nosso bebê já tinha nascido, e o Daniel dizia que não. Vi o anestesista injetando mais algum remédio no soro, e eu comecei a ficar mais zonza. Tinha a sensação de dormir e acordar em frações de segundo. Queria estar atenta ao menor sinal do choro do Miguel. Entre uma apagada e outra, senti um assistente empurrando a minha barriga por cima de mim. Depois, lembro-me apenas do Dr. José Domingos dizendo:

- Vou ter que puxar pelas pernas...

Depois disso, apaguei.

Depois desses momentos de aflição, lembro-me de acordar na sala de repouso. Estava em outra maca, sozinha, e vi apenas uma poltrona do lado direito na direção dos meus pés. Todo o meu corpo estava pesado, inclusive minhas pálpebras que insistiam em fechar meus olhos. Era uma sensação de cansaço misturado com moleza. Havia apenas silêncio. Não tinha ainda notícias do que havia acontecido. Entre um pequeno cochilo e outro, vi uma enfermeira entrando pela porta e se aproximando de mim. Vagarosamente e com uma voz doce, ela disse:

- Kelly, seu bebê já não está mais conosco. Sinto muito.

Eu sabia muito bem o que aquilo queria dizer. Em silêncio, fiz apenas um sinal com os olhos e com a cabeça aceitando a notícia. Ela continuou:

- Você quer vê-lo?

Não tive a menor dúvida e respondi que sim.

Ela saiu da sala, demorou alguns eternos minutos e voltou. Trazia em seu colo o bebê mais lindo do mundo. Era o Miguel, pequenino, de toquinha na cabeça e todo enroladinho com uma manta do hospital. Ainda inchado, eu pude perceber suas ruguinhas, características de qualquer recém-nascido. Deitada, perguntei se poderia beijá-lo. A enfermeira o aproximou do meu rosto e eu pude encostar meus lábios na sua bochecha, dando um beijinho estalado. Fiquei ainda algum tempo olhando pra ele, quieta, admirada, e morrendo de orgulho do meu pequeno guerreiro. Antes que a moça o levasse de volta, pedi para dar outro beijo nele, desta vez de despedida.

Nosso encontro fora da barriga foi rápido. Embora eu soubesse que ele já estava bem distante dali, o contato com os seus olhos, com seu nariz, com sua boca igual ao do Daniel e seu corpinho diminuto, me trouxe à realidade e me fez perceber que apesar de toda a nossa comunhão, ele era um ser único, independente, que vivia a sua própria história. A única e importante história que ele poderia viver. A sensação que ficava era a de leveza. De missão cumprida. E apesar da dor, de final feliz.

Nessa história, apesar de toda a intensidade e saudade, não há arrependimentos. Tenho certeza que fiz o melhor, tudo o que estava ao meu alcance. Fui muito feliz gestante e sou feliz em ser mãe. Para não dizer que não me arrependi de nada, houve sim, um único arrependimento. Naquele momento, enquanto eu me refazia na sala de recuperação pós-parto, ainda meio grogue da anestesia, arrependo-me de não ter pedido para pegar o Miguel no colo e ter cantado para ele.

Apesar disso, eu sei que ele teve uma partida doce e calma, como a canção.

Vem a noite, doce e calma
Doce e calma
Din Don
Din Don
Din Don


Kelly Cecília Teixeira

Meu bebê viveu bravos 48 minutos. Foi registrado com o
nome de Miguel de Jesus Teixeira Ribeiro. Foi sepultado dignamente no Cemitério
Público da Vila Alpina. No dia da sua despedida, o céu de São Paulo recebia um
lindo arco-íris de presente, que era possível avistar da janela do quarto da
maternidade. Imagem de alegria e esperança.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Capítulo 17 de 18

Licença

Como de direito, aos 08 meses de gestação, solicitei a minha licença-maternidade. Ao contrário de outras mães que preferem deixar a licença para quase bem perto do parto, para poder aproveitar melhor o tempo do benefício com os seus bebês, eu achei melhor sair antes. Primeiro, porque no auge do verão, não só meus pés estavam inchados, mas meu corpo todo, o que me causava bastante mal estar. Segundo, a barriga, enorme, tanto pelo período avançado da gravidez como pelo aumento do líquido amniótico, já previsto, me cansava e me atrapalhava nos afazeres do trabalho. Já era difícil e perigoso dirigir. Com o pé bem nas minhas costelas direitas, Miguel era, sem saber, causador de fortes dores nessa região e também nas costas. Como diria minha avó, eu estava naquele estágio em que as grávidas ficam parecendo uma “pata choca”.
Andava de perna entreaberta e apoiava a mão na cintura. Precisava de ajuda pra sentar, pra levantar e pra colocar sapato. Era, muitas vezes, motivo de chacota. Uma delícia.

Mas para além das dificuldades de locomoção, respiração, inchaço e calor, percebi que meu tempo com o Miguel estava chegando ao fim. E portanto, eu não só gostaria, como na verdade precisava, ficar mais tempo com ele. Ter com ele dedicação exclusiva.

Embora eu ame o que eu faço e meus amigos de trabalho tenham me apoiado o tempo todo, seja profissionalmente seja emocionalmente, eu sentia que precisava desse tempo a sós. Só nos dois.

Nesse último mês, nossa relação que já era intensa, se aproximou ainda mais. Entretida somente com a gestação, podia sentir cada movimento, cada chute, cada soluço. E com toda a calma que me era disponível, eu parava o que estivesse fazendo para senti-lo. Para conversar com ele. Para cantar. Pela manhã, repetia o ritual de sempre, desejando-lhe bom dia, e depois do banho, passando meus cremes de costume. Mas agora era um outro tempo, mais vagaroso, mais atencioso, mais silencioso. Dava-me o luxo de desperdiçar bons minutos deitada na cama tomando um banho de sol que chegava pela janela.

Durante o dia dividia meu tempo entre o computador, a televisão ou algum livro. Foi ótimo ficar em casa, sem nada pra fazer, sem precisar dispensar nenhum esforço exagerado, e poder ajeitar minha coluna entre almofadas e travesseiros. À noite, com a chegada do Daniel, preparava uma comidinha
modesta, daquelas que qualquer moça moderna (não) sabe fazer, e era ótimo ter a família reunida em casa. Ao menor sinal de distração, Miguel dava sinal de vida, interrompendo nossa conversa ou uma cena na TV com uma cambalhota (que se não era uma, parecia! Tamanha a distorção no formato da minha barriga...).

Eu não sabia o que poderia acontecer com o Miguel depois do parto, mas a sensação era a de que cada dia a mais, era um dia a menos. Por isso, a vontade era de esticar o tempo, torcer assim como a gente torce uma roupa a fim de espremer a última gota, ao máximo, quase até arrebentar. Cada segundo com ele era especial, era uma alegria, era entender o milagre da vida.

Mas o tempo, como diria Mário Quintana, “não pode viver sem nós, para não parar. E todas as manhãs nos chama freneticamente.” Assim, era chegado o dia do parto.

Kelly Cecília Teixeira