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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Capítulo 18 de 18

Nascimento

Dia 12 de janeiro de 2010. Terça-feira. Nascimento do Miguel.

Fazia um calor danado, e logobcedo o sol já dava suas caras. Acordamos na hora prevista e sem maiores delongas começamos a nos ajeitar para seguir até o hospital. Tomei banho, conversei com o Miguel enquanto me vestia. Coloquei sandálias e um vestidinho verde bem fresquinho. Verde esperança. Peguei bolsa, malas e dei aquela última espiada pela casa para verificar se não estava esquecendo nada. Olhava tudo várias vezes como se quisesse ficar só mais um pouquinho em casa. E a vontade era de desistir, ficar ali, só eu, Miguel e Daniel pra sempre. Mas não tinha jeito, meu bebê tinha que nascer.


No caminho, passamos na casa da minha mãe para pegá-la. Meu pai tinha ido trabalhar e iria depois para o hospital. O caminho até lá foi silencioso. Chegamos e como em vários momentos na minha vida, entrei pisando com o pé direito. Para dar sorte. Fizemos a ficha e aguardamos a chamada na sala de espera. Não demorou muito, uma atendente chegou para nos conduzir até o quarto. Era no segundo andar, ao lado do berçário.

Ao entrar no quarto, nenhuma surpresa, tudo era bem arrumado, elegante, igual ao que tínhamos visto no dia da visita à maternidade. Enquanto esperava as orientações da enfermeira, tratei de personalizar o quarto. Coloquei o enfeite na porta, e fui preenchendo as lembrancinhas com a data do dia. Deixei para preencher no próprio dia por medo do Miguel resolver chegar antes e o cartão ficar com a data errada. Logo depois, a enfermeira-chefe chegou e me examinou. Fez uma série de perguntas elencadas em um questionário e pediu que eu aguardasse. Ficamos no quarto conversando, até que um tempo depois, ela chegou com o avental e solicitou que eu vestisse. Verificou minha toilette e novamente pediu que eu aguardasse mais um pouco. Nesse meio tempo, chegaram meus amigos Andrea e Erick, que vieram para dar força e desejar boa sorte. Nós conversávamos sobre amenidades enquanto minha mãe parecia bastante apreensiva. Pouco mais de uma hora depois, a enfermeira voltou trazendo uma cadeira de rodas para me levar ao centro cirúrgico. Naquele momento, meu coração acelerou e embora não quisesse transparecer, estava apavorada. Despedi-me de todos. Minha mãe me deu um abraço forte e o Daniel me deu um beijo de até breve, pois estaria logo mais comigo na sala de parto. Algumas pessoas chegaram antes que eu entrasse no elevador já no corredor da maternidade, mas lembro-me apenas da Juliana chegando com pressa para me dar um abraço. Levei comigo o carinho de todos.

Dessa hora até o nascimento do Miguel, minha memória embaralhou uma série de fatos, mas lembro-me de ter ido para outra sala de espera, onde ficam outras gestantes. Todas estavam com a indumentária característica, apreensivas, assistindo desenho animado na TV, único programa disponível naquela hora da manhã. Mas todas olhavam para a televisão com um olhar distante, como se aquilo não fizesse mais o menor sentido, e fosse apenas um paliativo antes de chegar a grande hora. Fiquei nessa sala um tempo. Muito tempo. Umas grávidas saiam e outras chegavam. E se eu já estava nervosa, essa demora me afligia ainda mais. Até que uma enfermeira veio me avisar que o Dr. José Domingos estava atrasado devido a uma emergência, mas estava a caminho. Assim, me transferiram para uma sala mais confortável, com maca, luz amena, onde pude deitar e descansar. Nessa sala, me aplicaram o cateter, por onde passaria o soro e todos os outros medicamentos. Havia outra moça na sala, que também esperava o seu médico. Embora cúmplices da mesma situação, não trocamos palavras, e no silêncio do quarto, podíamos apenas ouvir a respiração uma da outra.

Enquanto esperava, as enfermeiras vinham de vez em quando na sala, davam algum remédio, alguma orientação ou apenas entravam pra preencher alguma coisa nas suas fichas. Em uma dessas vezes, vi uma delas cochichando com a outra, e mostrando algo na ficha. A outra se espantou e fez cara de lamento. Percebi que falavam de mim e do Miguel. Senti vontade de chorar e de que tudo fosse diferente.

Após alguns cochilos, a assistente do Dr. José Domingos chegou, se apresentou e disse que em alguns minutos subiríamos para o centro cirúrgico. Não demorou muito e as enfermeiras me conduziram até lá. Ao entrar, me espantei ao ver uma sala pequena, diferente daquilo que eu imaginava ser uma sala de parto. Já havia algumas pessoas no local junto com o meu médico, eram os anestesistas e assistentes. Falavam de amenidades, davam risada e brincavam um com o outro. Era uma forma de deixar o momento mais relaxado. Eu sentia vontade de dizer um monte de coisas, fazer quase uma sessão de terapia, mas minha garganta estava travada e eu não conseguia fazer nada além do que eles me orientavam. Queria falar, queria gritar, queria sair correndo, mas também queria ficar e ver a carinha do meu bebê.

O anestesista pediu para que eu sentasse em determinada posição na maca para que ele pudesse aplicar a injeção. Um assistente ficou na minha frente, pediu que eu abaixasse a cabeça e dobrou os braços para me servir de apoio enquanto eu tomava a anestesia. Não doeu, mas foi uma sensação bastante estranha, incômoda. Deitei e senti que os médicos arrumavam o avental, os tecidos, os equipamentos. Comecei a ficar apreensiva, pois parecia que tudo estava começando, sem que eu soubesse e que o Daniel estivesse comigo. Prenderam meus braços e colocaram um tecido na frente do meu rosto. Só então, vi o Daniel entrando pela porta. Parecia um deles, vestido de azul, de toquinha e máscara. Mas o reconheci pelos olhos, bem característicos. Era finalmente, um semblante familiar.

A sua entrada anunciava que era chegada a hora. Tudo preparado, era a hora do Miguel nascer. Já não sentia mais as minhas pernas, estavam pesadas, imóveis. Mas sentia um frio absurdo, de tremer o queixo. Achava que era do ar condicionado daquele ambiente frio e cheio de metal, mas soube depois, que era efeito da anestesia. Foram momentos de muita aflição. Sentia o Daniel segurando a minha mão, mas tremia muito, e aquele pano na minha frente me causava falta de ar. Comecei a ficar ofegante, agitada, mas não podia nem me mexer e nem mexer meus braços. Perguntei várias vezes se já tinha começado, e o Daniel não soube responder. Perguntei várias vezes se o nosso bebê já tinha nascido, e o Daniel dizia que não. Vi o anestesista injetando mais algum remédio no soro, e eu comecei a ficar mais zonza. Tinha a sensação de dormir e acordar em frações de segundo. Queria estar atenta ao menor sinal do choro do Miguel. Entre uma apagada e outra, senti um assistente empurrando a minha barriga por cima de mim. Depois, lembro-me apenas do Dr. José Domingos dizendo:

- Vou ter que puxar pelas pernas...

Depois disso, apaguei.

Depois desses momentos de aflição, lembro-me de acordar na sala de repouso. Estava em outra maca, sozinha, e vi apenas uma poltrona do lado direito na direção dos meus pés. Todo o meu corpo estava pesado, inclusive minhas pálpebras que insistiam em fechar meus olhos. Era uma sensação de cansaço misturado com moleza. Havia apenas silêncio. Não tinha ainda notícias do que havia acontecido. Entre um pequeno cochilo e outro, vi uma enfermeira entrando pela porta e se aproximando de mim. Vagarosamente e com uma voz doce, ela disse:

- Kelly, seu bebê já não está mais conosco. Sinto muito.

Eu sabia muito bem o que aquilo queria dizer. Em silêncio, fiz apenas um sinal com os olhos e com a cabeça aceitando a notícia. Ela continuou:

- Você quer vê-lo?

Não tive a menor dúvida e respondi que sim.

Ela saiu da sala, demorou alguns eternos minutos e voltou. Trazia em seu colo o bebê mais lindo do mundo. Era o Miguel, pequenino, de toquinha na cabeça e todo enroladinho com uma manta do hospital. Ainda inchado, eu pude perceber suas ruguinhas, características de qualquer recém-nascido. Deitada, perguntei se poderia beijá-lo. A enfermeira o aproximou do meu rosto e eu pude encostar meus lábios na sua bochecha, dando um beijinho estalado. Fiquei ainda algum tempo olhando pra ele, quieta, admirada, e morrendo de orgulho do meu pequeno guerreiro. Antes que a moça o levasse de volta, pedi para dar outro beijo nele, desta vez de despedida.

Nosso encontro fora da barriga foi rápido. Embora eu soubesse que ele já estava bem distante dali, o contato com os seus olhos, com seu nariz, com sua boca igual ao do Daniel e seu corpinho diminuto, me trouxe à realidade e me fez perceber que apesar de toda a nossa comunhão, ele era um ser único, independente, que vivia a sua própria história. A única e importante história que ele poderia viver. A sensação que ficava era a de leveza. De missão cumprida. E apesar da dor, de final feliz.

Nessa história, apesar de toda a intensidade e saudade, não há arrependimentos. Tenho certeza que fiz o melhor, tudo o que estava ao meu alcance. Fui muito feliz gestante e sou feliz em ser mãe. Para não dizer que não me arrependi de nada, houve sim, um único arrependimento. Naquele momento, enquanto eu me refazia na sala de recuperação pós-parto, ainda meio grogue da anestesia, arrependo-me de não ter pedido para pegar o Miguel no colo e ter cantado para ele.

Apesar disso, eu sei que ele teve uma partida doce e calma, como a canção.

Vem a noite, doce e calma
Doce e calma
Din Don
Din Don
Din Don


Kelly Cecília Teixeira

Meu bebê viveu bravos 48 minutos. Foi registrado com o
nome de Miguel de Jesus Teixeira Ribeiro. Foi sepultado dignamente no Cemitério
Público da Vila Alpina. No dia da sua despedida, o céu de São Paulo recebia um
lindo arco-íris de presente, que era possível avistar da janela do quarto da
maternidade. Imagem de alegria e esperança.



19 comentários:

  1. Klelly.....aqui estou eu sentindo uma mistura de sentimentos ao ler todo o seu relato......quero poder ver o seu próximo relato......do irmazinha ou irmazinha do Miguel que vira para encher essa linda família de alegrias......

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  2. Oi, querida! Estou ansiosa por esse dia também! Obrigada pelo apoio, pela leitura e pelo carinho.

    Um beijo,

    Kelly

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  3. Co a voz embargada,lágrimas que escorrem em meu rosto,e a dor que ainda sinto em meu coração,por essa passagem em suas vidas,mesmo assim quero dizer,quanto orgulho tenho de vcs...Vc filha,essa pessoa iluminada que DEUS me deu,guerreira,sensata,corajosa,perseverante e etc,o DANIEL por ser uma pessoa tbm,que mostrou o quanto te ama,respeita e é companheiro,um casal assim nunca vi nem ouvi falar,tamanha compreensão,amor respeito,companherismo um pelo outro,se nós(a sua família) já o admirava,saiba que agora muito mais,e o ¨MIGUEL¨ah....esse pequenino hérói,que lutou bravamente durante toda sua gestação,e ainda mais 48 minutos....mostrando ser como é parecido com vc...Mas tenho absoluta certeza que êle foi homenageado no céu...Recebeu uma medalha por conta da sua bravura,que foi o colo de JESUS...por isso minha filha,saiba que seu dever,o do Daniel edo ¨MIGUEL¨foram cumpridos com muita dignidade,respeito e amor....DEUS OS ABENÇOE SEMPRE....¨MIGUEL¨arco-iris de DEUS, a vovó te amará eternamente *am

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  4. Kelly, que história mais linda e emocionante... aprendi muito com vocês ao acompanhar esses fatos; passei a admirá-los imensamente pela coragem e pelo amor... Torço para que Deus lhes dê uma nova chance de praticar esse amor tão lindo - quem sabe não será com o Miguel de novo?
    Vocês são muito abençoados. Pela chance que souberam aproveitar e pela oportunidade de contagiar outras pessoas com esse amor - eu também fui tocada por ele ao ler sua história, ao me emocionar e rever minha própria vida.
    Obrigada, Kelly e Daniel... e que a vida lhes traga muita felicidade!!!

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  5. Obrigada por compartilhar tão bela historia!

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  6. Li todos os capítulos agora e me emocionei em vários deles. Parabéns pela postura e por ter tomado sabia decisão. Tenho certeza que logo vocês serão agraciados com um novo bebê, assim como percebi que vocês são espíritos evoluídos e merecem toda a felicidade.

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  7. EU não resisti a post de uma amiga indicando seu BLOG, nunca tive paciencia para ler um BLOG, mas alguma coisa tocou em meu coração e no mesmo instante comecei a ler, nossa que coisa mais emocionante e linda, uma verdadeira história de amor, de cumplicidade, de renuncia...com certeza esse bebe, esse anjo que você recebeu em sua barriga, veio te ensinar muitas coisas e com seu relato também nos ensinou muito...não existe nada que se compare ao AMOR MATERNO....parabéns por tudo e principalmente obrigada...seja muito feliz... que DEUS continue te abençoando

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    1. Olá, Luciana! Obrigada pelas palavras carinhosas. Fico feliz que a nossa história esteja ecoando por aí e de alguma forma contribuindo para a vida das pessoas. Era essa mesma a intenção. Por curiosidade, quem foi a amiga que indicou o blog? Um beijo!
      Kelly

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  8. Oi Kelly, vi a referencia do seu blog, no blog de uma amiga e resolvi ler, sua historia me fez voltar no tempo e lembrar do dia em que o Pedro nasceu, da sensação que eu senti, foi como se eu voltasse pra sala de cirurgia e aquela explosão de emoções invadisse meu coração.
    Obrigada pela sua força e coragem em partilha sua história, fez toda a diferença pra mim.
    bjs

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    1. Olá, Edna. Obrigada pelo carinho. Um beijo.

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  9. Parabéns por tudo! REALMENTE UMA LINDA HISTÓRIA DE VIDA
    BEIJÃO

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  10. Ola Kelly,
    Acabo de terminar de lersua história e nunca na minha vida li ou vi nada igual.
    É um misto de vontade de chorar (que eu não segurei), com dor e ao mesmo tempo alegria, pois você fez exatamente aquilo que deveria ter feito e deu ao seu Miguel todo o amor que lhe cabia.
    Parabéns pela sua coragem e pelo seu amor.

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  11. Olá, Mariana. obrigada! Um abraço carinhoso! Bjos

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  12. Oi, Kelly. Não sei nem muito o que dizer, lembro nitidamente do dia que conversamos pelo msn e você me contou que estava grávida e depois explicou toda a história. Apesar de não termos mais muito contato, sempre te admirei, sempre senti que você tinha uma luz a mais no olhar. Acompanhei seu blog aqui quietinha, mas tinha que deixar um beijo pra vocês. E que sempre brilhe em vocês essa luz ♥

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    1. Oi, querida!
      Obrigada pela leitura e pelas palavras carinhosas. Também adoro você e é uma pena não nos vermos com frequência... podíamos combinar um café qualquer dia desses hein... Obrigada pela força. Um beijo!

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    2. Vamos combinar sim, de verdade. Encurtar essas distâncias ;) Beijo!

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  13. Oi Kelly!!
    É difícil não se emocionar! Lendo suas palavras foi como vivenciar tudo com vc!!Com certeza tudo estava preparado para que tivessem tamanha tranquilidade, mesmo em meio a tantos acontecimentos. E hj vc, o Daniel e o Miguel são grandes vitoriosos por mais essa conquista! Deus já está sempre com vcs, amparando e fortalecendo, mas desejo que esse amor que vcs conseguem transmitir se multiplique entre vcs e a todos o que tem a oportunidade de estar ao seu redor!
    Um grande beijo!!!
    Aline

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    1. Olá, Aline

      Toda vez que leio, me emociono novamente, mas é uma emoção boa, de saudade apenas. Também desejo a você uma caminhada suave e iluminada, porque você e sua filhota também são guerreiras! Um beijo grande!

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  14. Quanto amor... Meu Deus, quanto amor!
    Como foi maravilhoso ler cada linha desse blog!
    Beijos, FêVeiga

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