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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Capítulo 17 de 18

Licença

Como de direito, aos 08 meses de gestação, solicitei a minha licença-maternidade. Ao contrário de outras mães que preferem deixar a licença para quase bem perto do parto, para poder aproveitar melhor o tempo do benefício com os seus bebês, eu achei melhor sair antes. Primeiro, porque no auge do verão, não só meus pés estavam inchados, mas meu corpo todo, o que me causava bastante mal estar. Segundo, a barriga, enorme, tanto pelo período avançado da gravidez como pelo aumento do líquido amniótico, já previsto, me cansava e me atrapalhava nos afazeres do trabalho. Já era difícil e perigoso dirigir. Com o pé bem nas minhas costelas direitas, Miguel era, sem saber, causador de fortes dores nessa região e também nas costas. Como diria minha avó, eu estava naquele estágio em que as grávidas ficam parecendo uma “pata choca”.
Andava de perna entreaberta e apoiava a mão na cintura. Precisava de ajuda pra sentar, pra levantar e pra colocar sapato. Era, muitas vezes, motivo de chacota. Uma delícia.

Mas para além das dificuldades de locomoção, respiração, inchaço e calor, percebi que meu tempo com o Miguel estava chegando ao fim. E portanto, eu não só gostaria, como na verdade precisava, ficar mais tempo com ele. Ter com ele dedicação exclusiva.

Embora eu ame o que eu faço e meus amigos de trabalho tenham me apoiado o tempo todo, seja profissionalmente seja emocionalmente, eu sentia que precisava desse tempo a sós. Só nos dois.

Nesse último mês, nossa relação que já era intensa, se aproximou ainda mais. Entretida somente com a gestação, podia sentir cada movimento, cada chute, cada soluço. E com toda a calma que me era disponível, eu parava o que estivesse fazendo para senti-lo. Para conversar com ele. Para cantar. Pela manhã, repetia o ritual de sempre, desejando-lhe bom dia, e depois do banho, passando meus cremes de costume. Mas agora era um outro tempo, mais vagaroso, mais atencioso, mais silencioso. Dava-me o luxo de desperdiçar bons minutos deitada na cama tomando um banho de sol que chegava pela janela.

Durante o dia dividia meu tempo entre o computador, a televisão ou algum livro. Foi ótimo ficar em casa, sem nada pra fazer, sem precisar dispensar nenhum esforço exagerado, e poder ajeitar minha coluna entre almofadas e travesseiros. À noite, com a chegada do Daniel, preparava uma comidinha
modesta, daquelas que qualquer moça moderna (não) sabe fazer, e era ótimo ter a família reunida em casa. Ao menor sinal de distração, Miguel dava sinal de vida, interrompendo nossa conversa ou uma cena na TV com uma cambalhota (que se não era uma, parecia! Tamanha a distorção no formato da minha barriga...).

Eu não sabia o que poderia acontecer com o Miguel depois do parto, mas a sensação era a de que cada dia a mais, era um dia a menos. Por isso, a vontade era de esticar o tempo, torcer assim como a gente torce uma roupa a fim de espremer a última gota, ao máximo, quase até arrebentar. Cada segundo com ele era especial, era uma alegria, era entender o milagre da vida.

Mas o tempo, como diria Mário Quintana, “não pode viver sem nós, para não parar. E todas as manhãs nos chama freneticamente.” Assim, era chegado o dia do parto.

Kelly Cecília Teixeira

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